Colarinho clerical, fones de ouvido, console entre os dedos e start na webcam. É assim que o padre mineiro Edson José, de 33 anos, une a vocação religiosa a um de seus maiores hobbies: o videogame. Com o número de missas e compromissos reduzidos na Arquidiocese de Leopoldina (MG), por causa da pandemia de Covid-19, ele entrou na era das transmissões ao vivo de títulos como Among Us, Mario World e The Legend Of Zelda. Não demorou para perceber no Twitch — plataforma de streaming focada em jogos — um eficiente instrumento de evangelização.

“O foco ali é acolher a todos e as pessoas verem que a figura do Padre não é algo distante, pelo contrário, ele está ali para acolher a todos e criar um ambiente saudável, o que tem sido raro na internet ultimamente. É muito frequente que, após uma live, alguém venha me procurar no Twitter pedindo algum conselho ou querendo partilhar sua vida. Ali é que acontece, realmente, a evangelização. Aquela que busca falar ao coração”, conta.

Nascido em Palma, Minas Gerais, Edson cresceu apaixonado pelo universo dos games e da cultura pop. A vida sacerdotal nunca foi encarada como um empecilho para fazer o que gosta.

“Eu fui uma criança crescida nos anos 1990, os games sempre fizeram parte da minha vida e da dos meus amigos. Quando entrei no seminário para iniciar o caminho formativo, não tinha mais o mesmo tempo, mas sempre aproveitava os intervalos para jogar no PC ou em portáteis como Nintendo DS”, lembra. “Nunca vi essa atividade como algo que pudesse atrapalhar minha vocação. Só precisei ter discernimento de quando era possível jogar ou não”, emenda o religioso.

Padre Edson José_Padre Geek

Quebrando tabus

Nitendista assumido, Edson também costuma se interessar por jogos de desenvolvedores independentes, que conversem com os temas com os quais ele gosta de interagir com os internautas. “Busco títulos que estão em sintonia com a proposta que tenho de evangelizar por meio da cultura pop, como Spiritfarer, sobre morte e relacionamentos, Celeste, com a abordagem da depressão e ansiedade, e Journey, que foca na questão da jornada vocacional”, explica.

Para além da desenvolvedora de games Nintento, Edson é fã de vários outros produtos da cultura japonesa, o que por si só já quebra vários tabus. “Eu consumo de um tudo nesse meio, mas o que mais surpreende as pessoas é meu apreço por mangás, animes e tokusatsus. Isso porque, no final dos anos 1990 e início dos 2000, existiu um grande movimento no Brasil dizendo que muitos desses conteúdos eram diabólicos e coisas do tipo, o que se trata de uma bobagem e falta de conhecimento sobre as obras”, lembra.

As críticas são esclarecidas sempre com muita paciência e bom humor: “Quando algumas pessoas sabem que consumo esse tipo de conteúdo logo perguntam ‘nossa, mas pode? Isso não é coisa do mal?’. As reações são sempre cômicas e acabo me divertindo (risos)”.

Padre Geek

Ainda que o Brasil seja um país majoritariamente católico, não são raras as pessoas com ideias equivocadas sobre a vivência dos padres. “As pessoas olham o sacerdote como se fosse um ser de outro mundo, que não possui uma vida além daquela do altar. Essa visão existe tanto dentro quanto fora da Igreja”, avalia o padre.

Para desconstruir essa opinião ultrapassada, ele abraçou o apelido de Padre Geek nas redes e conquistou o respeito de muitos gamers pela naturalidade e autenticidade com que interage na web.

“Muita gente acha que se trata de um personagem ou coisa do tipo. Mas sempre tem alguém que já me conhece e alerta que sim, sou padre de verdade. Eu acho até divertido isso, pois as reações das pessoas quando percebem que é um padre mesmo ali, jogando e conversando com eles, são geralmente muito positivas. As pessoas quebram essa imagem do padre velhinho e distante e passam a ver que somos pessoas normais, como qualquer outro”, diz.

Fonte: Metrópoles