Embora a torneira de capital de risco pareça ter fechado para a grande maioria das empresas de tecnologia recentemente, certos nichos e promessas de inovação continuam atraindo a atenção — e os cheques — dos grandes investidores. A Andreessen Horowitz (a16z), uma das firmas de venture capital mais influentes do Vale do Silício, demonstrou isso claramente ao liderar rodadas de financiamento em duas frentes distintas, porém aquecidas: a inteligência artificial generativa, com a Character.AI, e a infraestrutura de blockchain, com a startup Cork.
O novo unicórnio da Inteligência Artificial
No cenário de IA, a movimentação mais expressiva ficou por conta da Character.AI. A startup levantou US$ 150 milhões em uma nova rodada liderada pela a16z, atingindo uma avaliação de mercado de US$ 1 bilhão. O que chama a atenção é que esse valuation bilionário foi atribuído a uma empresa que, até o momento, possui receita zero.
Esse aporte reflete a explosão contínua de interesse no setor desde que o ChatGPT, da OpenAI, se tornou um fenômeno global. Para se ter uma ideia do apetite do mercado, dados do PitchBook apontam que o investimento em IA apenas no início de 2023 já ultrapassou todo o valor investido no setor durante o ano de 2020. Além do financiamento de risco, a Character.AI mantém negociações com provedores de nuvem para parcerias estratégicas.
Fundada em 2021 por Noam Shazeer e Daniel De Freitas, ex-pesquisadores do Google, a empresa permite que usuários criem e interajam com “personas” baseadas em inteligência artificial, personalizadas com valores e características específicas. A tração é impressionante: seis meses após o lançamento, o site já registra 100 milhões de visitas mensais. Essa trajetória de crescimento rivaliza com a do próprio ChatGPT, que detém o recorde de base de usuários com expansão mais rápida da história.
Mais do que apenas visitar, os usuários estão ficando. Segundo a empresa, quem envia mensagens na plataforma gasta, em média, mais de duas horas por dia interagindo com a IA. “Começamos a empresa porque queremos colocar essa tecnologia nas mãos de todos na Terra. Um bilhão de pessoas pode inventar um bilhão de casos de uso”, afirmou Noam Shazeer, presidente-executivo da startup.
Expansão e monetização
Sediada na Califórnia, a Character.AI não pretende ficar restrita ao entretenimento ou suporte emocional. A empresa está lançando um modelo novo que incorpora recursos de produtividade, como redação de e-mails e auxílio em estudos. O capital recém-captado será direcionado para o treinamento de seus modelos proprietários e para a expansão da equipe, que hoje conta com apenas 22 pessoas.
Sobre a falta de receita, Shazeer indicou que o cenário deve mudar em um futuro não muito distante. O plano inclui o lançamento de uma assinatura paga, sem eliminar a versão gratuita atual, e o executivo também não descartou a possibilidade de um modelo sustentado por anúncios.
Aposta na segurança dos ativos tokenizados
Enquanto a IA domina as manchetes de consumo, a Andreessen Horowitz também está voltando seus olhos para a infraestrutura crítica do mercado financeiro descentralizado (DeFi). Através do seu acelerador de startups cripto (CSX), e em conjunto com a Road Capital, a firma liderou uma rodada “seed” de US$ 5,5 milhões para a Cork.
A proposta da Cork difere do apelo popular dos chatbots: seu foco é construir uma categoria de infraestrutura “onchain” voltada para o risco tokenizado. Em resumo, a startup está desenvolvendo ferramentas para tornar transparentes e negociáveis os riscos implícitos na categoria emergente de Ativos do Mundo Real (RWAs, na sigla em inglês).
Essa “camada de risco programável” permitirá que gestores de ativos e emissores lancem mercados de swap personalizados. O objetivo é oferecer mais liquidez de resgate e confiança para ativos em blockchain. Na prática, a Cork cria um novo “primitivo” DeFi que permite precificar a chance de stablecoins ou outros RWAs falharem, oferecendo uma proteção contra desvalorizações abruptas (depegs) e fraudes.
Amadurecimento do mercado cripto
A tecnologia da Cork também é aplicável a produtos nativos do universo cripto, como tokens de liquid staking. A infraestrutura foi desenhada para se integrar diretamente com cofres ERC-4626 e tokens ERC-20, funcionando como um componente programável dentro do ecossistema de rendimentos onchain.
Para Phil Fogel, cofundador da Cork, essa é uma evolução necessária. “O risco tokenizado é uma conversa que a indústria praticamente não teve nos últimos anos, e isso está mudando agora com a entrada de grandes instituições e o amadurecimento do setor”, explicou. A ideia é dar aos emissores ferramentas para gerenciar cenários de estresse ativamente, em vez de apenas reagir quando o problema já aconteceu.
A equipe da Cork planeja lançar seus primeiros mercados de risco nos próximos meses e expandir integrações com emissores de ativos. A rodada de investimento também contou com a participação de nomes como BitGo Ventures, Stake Capital e outros fundos estratégicos, sinalizando um apoio robusto à tese de que o mercado precisa de melhores mecanismos de proteção e transparência.