A linha que separa o Universo Cinematográfico da Marvel e os quadrinhos originais acabou de ficar bem mais fina. Numa reestruturação corporativa gigante, Brad Winderbaum foi promovido a um cargo recém-criado: Head de Marvel Television, Animation, Comics & Franchise. Na prática, isso entrega o volante criativo da Marvel Comics nas mãos do cara que bancou o renascimento de X-Men ’97 e Daredevil: Born Again no streaming. E a ascensão dele lá dentro foi um negócio meteórico. Winderbaum começou sua jornada na produção do primeiro Homem de Ferro em 2008 e, de lá pra cá, virou o grande arquiteto de toda a linha de animação e TV do Disney+ em 2021.
Junto com essa guinada, o estúdio revelou que Dan Buckley, um veterano que respira Marvel há décadas, vai pendurar as chuteiras, abrindo espaço para a chegada de David Abdo, da Disney. Imagina só o peso: depois de quase 30 anos pilotando a marca por falências, compras corporativas e a explosão que transformou a empresa na realeza de Hollywood, Buckley está oficialmente passando o bastão. Claro que ele não vai simplesmente fechar a porta e sumir amanhã. Ele fica num papel de conselheiro até meados de 2027 pra garantir que a transição desse império editorial seja a mais tranquila possível. O próprio Kevin Feige rasgou elogios ao imenso impacto de Buckley, lembrando como ele comandou eventos gigantescos nas HQs, desde Guerra Civil e Dinastia X até o vindouro selo Midnight.
O plano agora é claro e divide bem o campo de jogo. Enquanto Winderbaum toma conta da planta baixa criativa, David Abdo entra para rodar a máquina operacional como o novo Gerente Geral de Comics & Franchise. Abdo veio do Disney Music Group com um histórico de peso, onde fez o faturamento decolar e alavancou a inovação digital. Ele vai responder direto ao Winderbaum, focando pesado em distribuição digital, modelos de assinatura e em enfiar a Marvel em novos setores multimídia globais. Para Feige, essa dupla — a visão de histórias episódicas do Brad somada à excelência estratégica do David — é o motor que vai construir os próximos 90 anos de legado da editora. Pode até bater aquele medo nos puristas de que os quadrinhos vão ser totalmente “MCU-zados”, mas o respeito absurdo pela história da mídia que Winderbaum mostrou nas suas últimas produções dá a entender que a casa está nas mãos de quem realmente entende do riscado.
E toda essa dança das cadeiras, que se arrasta até 2027 com a saída gradual do Buckley, não é por acaso. Ela prepara o terreno para um futuro onde o cinema e os quadrinhos vão estar milimetricamente sincronizados, bem na época em que Avengers: Secret Wars promete reescrever o mapa corporativo da empresa nas telonas. Falando nisso, as raízes de Guerras Secretas nunca estiveram tão em alta, e a Marvel sabe muito bem que o seu futuro depende diretamente do que foi desenhado no passado.
Se você cresceu lendo gibi nos anos 80 e 90, o traço de Mike Zeck provavelmente está cravado na sua memória. Foi ele quem desenhou a minissérie original de Secret Wars, que apresentou ao mundo o icônico traje negro do Homem-Aranha — que, como todo mundo sabe, acabou virando o Venom. O cara não parou por aí. A arte dele na minissérie do Justiceiro de 1986 foi o que catapultou Frank Castle para o primeiro escalão de popularidade. E isso é só a ponta do iceberg da contribuição dele para a editora.
Para celebrar esse legado pesado, uma campanha acabou de ir ao ar no Kickstarter bancada pela Clover Press para lançar o The Marvel Art of Mike Zeck. A ideia é entregar um artbook de luxo, daqueles parrudões de deixar na mesa de centro, com mais de 200 páginas no formato 9″ x 12″. A campanha também vai jogar no pacote prints de 11″ x 17″, adesivos, quebra-cabeças e edições autografadas. Várias páginas exclusivas já apareceram para os apoiadores darem uma espiada, dando destaque justamente para as capas da série Secret Wars de 1984 — a mesmíssima obra que serve de base para o tal projeto super ambicioso da Marvel Studios no cinema.
Desde que estreou em 1977 desenhando Shang-Chi, a fama de Zeck explodiu. Ele ilustrou a magistral A Última Caçada de Kraven, uma das histórias mais aclamadas do Cabeça de Teia, e aquela capa do Annual #8 mostrando o Wolverine saindo na mão com o Capitão América continua sendo uma das imagens mais viscerais da Marvel. Por sinal, é essa a arte que estampa a capa do novo livro.
Hank Kanalz, publisher da Clover Press, resumiu bem o sentimento de tirar um projeto desses do papel. Ele lembra de ter conhecido o desenhista em 1986, na Chicago Comicon, logo depois do hype do Justiceiro, e como aquilo marcou a vida dele. Hoje, conseguir convencer Zeck, já aposentado, a fazer parte dessa linha prestigiada de artbooks tem um gosto de vitória. Quem quiser mergulhar nessa nostalgia visual, a página oficial do projeto já está recebendo apoios. E no fim das contas, a roda gira desse jeito: a Marvel reestrutura seu topo para dominar o futuro, mas seu alicerce continua sendo a tinta fresca e genial de lendas que construíram esse universo do zero.