O apresentador do programa policial mais famoso da cidade suspeito de mandar matar para abastecer de pauta o próprio programa. Esse é o enredo da série documental “Bandidos na TV”, disponibilizada na Netflix desde 1º de junho. Pode até parecer ficção, mas os sete episódios retratam uma história real, a de Wallace Souza, que entre 1996 e 2008 apresentou o programa “Canal Livre” na extinta TV Rio Negro, hoje Band Amazonas.

Famoso em Manaus, o ex-policial e então deputado estadual acabou ganhando notoriedade nacional e até internacional após a polícia revelar suspeitas de ligação dele com o crime organizado.

Toda essa trama foi objeto de pesquisa da equipe do britânico Daniel Bogado, diretor geral da série, que conversou com o NaTelinha essa semana. “Muitas vezes, nossa equipe tinha que descobrir maneiras criativas para encontrar muitas destas coisas que tinham sido perdidas anos atrás”, conta Bogado. A reportagem também ouviu dois jornalistas que atuaram na cobertura do caso Wallace. “Muita coisa importante ficou de fora”, diz Clayton Pascarelli, da Record Manaus, e à época repórter da Rede Amazônica, aliada da Globo.

Outro jornalista também personagem do documentário é Mario Marinho, atualmente diretor do portal M2 e à época repórter da TV Em Tempo (SBT). No dia em que Wallace teve seu mandato cassado pela Assembleia Legislativa do Amazonas, a irmã dele, Marlúcia Souza, tomou o microfone e criticou a atuação da mídia no processo, aos gritos e palavrões: “A imprensa simplesmente tá acabando com uma família. Que imprensa é essa?”

O caso

Wallace Souza tornou-se um apresentador famoso a partir de 1996, no comando do “Canal Livre”, atração da antiga aliada da Band no estado. O programa mostravam mortes chocantes e acompanhava operações policiais na periferia de Manaus. Como ex-policial, o então apresentador acumulava fontes na polícia e conseguia acompanhar de perto casos de tráfico, assassinatos e agressões. O programa foi crescendo ao longo dos anos e o catapultou para a carreira política.

Mas em 2008, a prisão de Moacir Jorge Pereira da Costa, o Moa, virou completamente o jogo para Wallace. Moa foi o responsável por acusar o ex-deputado de se associar ao crime organizado e matar rivais para render pautas ao seu próprio programa. Apesar do apresentador dizer que não conhecia Moa, a revelação de uma foto em que aparecem os dois na piscina, em um momento de descontração, caiu como uma bomba.

A imprensa ficou no meio da confusão entre o ex-deputado e seus defensores e a Polícia Civil do Amazonas. Mas, para quem participou da cobertura, a atuação da mídia foi correta. “Não houve nenhum tipo de pré-julgamento, como alegado por familiares. As emissoras trabalhavam com informações oficiais, disponibilizadas pela força-tarefa. E a foto do Moa surgiu e foi noticiada pela imprensa”, defende Mário Marinho.

Clayton Pascarelli concorda com Mário e lembra que ainda teve coisa importante que ficou de fora do documentário. “Eu conhecia advogados, por exemplo, que tiveram contatos com o Moa no dia da prisão dele e nem foram citados. Muita coisa importante ficou de fora. No direito, por exemplo, existe a prova testemunhal e isso existiu bastante. Fora a prova material. E fotos comprometedoras falam por si, né?”, avalia.

Curiosamente, apesar de abordar um programa televisivo, “Bandidos na TV” não coloca profissionais da televisão para compartilhar suas impressões. Com exceção da equipe do “Canal Livre”, a gura do repórter televisivo só é vista em trechos reportagens sobre o caso.

O diretor Daniel Bogado explicou que foi uma decisão necessária para editar o produto. “Nós estávamos tentando reduzir o número de pessoas que apareciam na série para evitar confusão. E descobrimos que muitos jornalistas de TV cobriram apenas parte do caso. Mas, pessoas como Paula (Litaiff, repórter de jornal impresso) cobriram todo o caso do começo ao fim. Por isso, foi interessante experimentar a jornada que ela percorreu pelos olhos dela”, comenta.

Microfone puxado

Foto: Reprodução Netflix

Como já mencionado no início da reportagem, um dos momentos mais tensos para a imprensa foi vivido por Mário Marinho. A irmã de Wallace, no dia em que ele foi cassado do Legislativo amazonense, tomou o microfone do jornalista, à época da TV Em Tempo, e criticou a imprensa. “Lembro que aquela foi a única vez que a vi. Foi um momento muito complicado para família e assessores, acredito que todos estavam muito tensos. Sou jornalista, a mim cabe apenas noticiar os fatos. De modo algum quis expor ela ou os outros”, pondera.

“Cheguei a falar algo sobre liberdade de imprensa, depois deixei ela falar e olhei para o cinegrafista para saber se ele estava gravando. Na edição resolvemos colocar no ar e tirar a parte que ela gritava palavrões. O caso tinha impacto nacional, foi uma sessão muito extensa. Acredito que foi a primeira vez que vi um plenário de uma casa legislativa totalmente em silêncio”, conta Marinho.

Wallace morreu em 2010, dois anos após o início das investigações, em decorrência de diversas doenças. Pascarelli, que acompanhou o caso de perto, lembra o quanto as revelações atingiram o apresentador. “Não só no Brasil, mas no mundo inteiro se você quer ver um político morto ou destruído, tire o seu poder. A ausência de poder faz as pessoas adoecerem, perderem a cabeça, se desequilibraram, entre outras coisas”, afirma.

Televisão amazonense antes e depois

O “Canal Livre” foi um fenômeno com as camadas populares de Manaus, até as denúncias contra Wallace surgirem. “Talvez pela situação situação econômica da época, muitas pessoas viam nos programas populares uma oportunidade de ajuda, ou financeira ou social. Para nós jornalistas, que cobríamos o cotidiano da cidade, era quase impossível não levar furo do programa. Eles tinham bastante fontes e a população via neles uma ‘solução’. Algo do tipo: o Estado não resolve, vamos ao ‘Canal Livre’ mostrar, que quando for ao ar eles solucionam”, relembra Mario.

Já Clayton contemporiza a situação. “Sinceramente, o ‘Canal Livre’ não era tudo isso. Era sim um programa que atingia bastante a periferia, mas àquela época a Rede Amazônica comprava pesquisas de audiência que mostravam a TV na liderança (em vez da atração de Wallace), por exemplo”, aponta.

“A televisão amazonense continua sobrevivendo tranquilamente mesmo após tudo isso. Foi só mais um caso que assusta e depois acaba esquecido pelo judiciário”, reflete Pascarelli. Marinho tem ponto de vista semelhante: “Foi marcante para TV amazonense, mas outros programas surgiram, veio a popularidade da internet, novos apresentadores etc. Penso que como tudo em TV, satura”.

Fonte: https://natelinha.uol.com.br/televisao/2019/06/23/bandidos-na-tv-reporteres-relembram-caso-wallace-e-diretor-fala-sobre-recuperacao-de-imagens-130237.php

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