(Foto: Yago Frota/GDC)

Pouco mais de um mês após o primeiro caso confirmado do novo coronavírus (Covid-19) no Amazonas, o Estado atingiu, nesta quarta-feira (15), a marca de 106 mortos pelo vírus, de acordo o com boletim on-line, da Fundação de Vigilância em Saúde do Amazonas (FVS). Além disso, com a Saúde estrangulada e em meio ao colapso na Saúde agravado por conta da pandemia, o Amazonas tem hoje 1.554 casos confirmados da doença e um hospital de campanha alugado por R$ 2,6 milhões, sem previsão para entrar em funcionamento. São 70 novos casos em 24 horas e a taxa de letalidade está em 6,8%.

O Amazonas é o 3º em incidência do vírus, conforme a taxa de contaminação dividida pelo número da população, segundo os dados do Ministério da Saúde divulgado, nesta terça-feira (14), e está entre os três Estados em situação crítica.

Médicos e enfermeiros têm denunciado com frequência não somente a falta de aparelhamento do sistema de saúde pública do Amazonas, mas também a falta Equipamentos de Proteção Individual (EPIs) e atraso no pagamento dos salários.

Nesta segunda-feira (13), o presidente da Associação Médica do Amazonas (AMA), Jorge Akel, informou, por meio de um vídeo divulgado por ele, que, no ano passado, mais de 500 médicos pediram transferência para outros estados, por conta dos atrasos constantes de salário.

Ainda segundo o presidente da AMA, o Estado do Amazonas vem se arrastando com dificuldade para honrar os compromissos com as cooperativas médicas, desde o início de 2019 até os dias de hoje, com atrasos constantes de pagamento.

“Sempre atrasando os pagamentos, de três a quatro meses. O CRM registrou no ano de 2019, um total de 550 médicos que pediram suas transferências, do Amazonas para outros Estados, alegando a dificuldade de manter o sustento da família por conta do atraso constante dos salários”, disse Akel, que também é secretário do Conselho Regional de Medicina (CRM).

EPIs

Na semana passada, o médico Petrônio Quintelo também divulgou vídeo falando sobre o risco que os profissionais da Saúde, que estão na linha de frente do combate ao coronavírus, estão morrendo por falta de EPIs. Em tom de desabafo e preocupação, ele disse estar com medo de contrair o Covid-19. “Tenho medo de ser acometido pelo vírus (Covid-19), no hospital. Tenho um colega médico que está internado em um hospital particular que foi acometido trabalhando. Nós não queremos engrossar as fileiras de óbitos, queremos respeito. Defendo todos os profissionais da Saúde. Estamos expostos”, desabafou ele.

Quintelo, que é concursado e trabalha no Hospital Adriano Jorge, bairro Cachoeirinha e na Fundação Centro de Controle de Oncologia do Estado do Amazonas (FCecon), relatou, inclusive, falta de máscara N95. “Não tínhamos máscara N95 para atender paciente. Não temos EPIs para nada e isso não está certo. Quer dizer que só devemos usar EPI se o paciente apresentar todos os sintomas do novo coronavírus?”, questionou.

Mudança

Em meio a pandemia, o governador Wilson Lima fez uma mudança delicada na pasta da Saúde, que causou preocupação inclusive no ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta. Ele exonerou o então secretário Rodrigo Tobias e nomeou a paulista Simone Papaiz para chefiar a secretaria.

A experiência de Simone como secretária é nas cidades de Mogi das Cruzes e Bertioga, ambas no interior de São Paulo. De acordo com os dados de 2019 disponíveis no site de Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), a população estimada dos municípios de Mogi das Cruzes e de Bertioga, é de 445.842 mil e 63.249 mil, respectivamente, o que gera uma população total de 509.090 mil, não chegando a um oitavo da população estimada do Amazonas que é de 4.144.597 milhões.

Na época, o Mandetta declarou, durante coletiva nacional, que o Amazonas e a Saúde precisavam de pessoas “habituadas”. “Manaus nos preocupa muito. Hoje teve troca de secretário de Saúde (…) e precisamos de pessoas que estejam habituadas com a rede e que não tenhamos que começar tudo do zero”, disse.

Pagamentos

Também neste período de pandemia, o governo do Amazonas já gastou o montante de R$ 736,8 milhões para honrar gastos de gestões anteriores, como do governo José Melo, conforme o Portal da Transparência. O alto valor gerou críticas por parte dos deputados do Amazonas.

O deputado Dermilson Chagas (Progressistas) disse que os recursos do Estado estão sendo mal geridos no combate à crise do coronavírus e pediu que os órgãos de fiscalização verifiquem quem foi beneficiado com a liberação do montante.

Já o deputado estadual Serafim Corrêa (PSB), qualificou como equívoco os pagamentos feitos pelo Estado. “Definição errada de prioridade. O governo tinha que está voltado para solucionar o problema da Saúde. Na questão do que estava para trás, tem que administrar caso a caso, parcelando, alongando a dívida, pleiteando descontos e não fazer isto que fez, gastar mais de R$ 700 milhões no pagamento de dívidas para trás e não comprar, por exemplo, respiradores”, afirmou o parlamentar.

Hospitais

No dia 2 de abril, quando o Estado tinha 229 casos confirmados, o governador Wilson Lima anunciou a criação de um hospital de campanha, no Hospital Nilton Lins, com 400 leitos prontos e com as devidas instalações elétricas e hidráulicas.

No dia 6 de abril, o então secretário de Saúde, Rodrigo Tobias, afirmou que a unidade hospitalar estaria em funcionamento em uma semana, ou seja, nesta segunda-feira (13). Mas a data foi descartada, nesta terça-feira (15), pela secretária Simone Papaiz. O aluguel do Hospital Nilton Lins custará aos cofres públicos R$ 2,6 milhões que, conforme Wilson Lima, serão divididos em três parcelas.

Mesmo com a liberação de R$ 736 milhões para o pagamento de dívidas de antigos governos e o aluguel de R$ 2,6 milhões por um hospital de campanha, o governo do Estado deixará de quitar um débito de R$ 5 milhões com o Hospital Beneficente Portuguesa.

A atual gestão do governo deixou de quitar R$ 5 milhões de débitos com o Hospital Beneficente Portuguesa (HBP). Os atrasos dos pagamentos são referentes, principalmente, aos meses dos anos de 2019 e 2020 gestão de Wilson Lima, e também em meses de 2017 e 2018.

De acordo com o diretor-presidente do HBP, Vitor Vilhena Gonçalo da Silva, desde 2017 o Estado não vem honrando com os seus compromissos. “O governo possui um débito conosco. Alguma coisa de 2017 e 2018, mas a maior parte deste atraso no repasse dos pagamentos é de 2019 e 2020. O montante já está na casa dos R$ 5 milhões e alguns mil. Nós estamos na mesma situação de outras clínicas: não estamos recebendo”, disse.

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