SÃO PAULO – A KPMG, consultoria que presta serviços para a Seguradora Líder, administradora do DPVAT, identificou uma série de irregularidades financeiras e administrativas após uma auditoria, segundo informações da Folha de São Paulo, que teve acesso ao documento completo. Segundo os documentos da consultoria, os problemas de pagamentos podem passar de R$ 1 bilhão.

O relatório mostra despesas sem comprovação, concentração no pagamento de sinistros em uma pequena parcelas de médicos, gastos excessivos com advogados e até compra de vinhos e de um veículo usado pela esposa de um ex-diretor da empresa.

O estudo foi encomendado pela atual direção da Seguradora Líder em 2017. Assim, foram avaliados documentos de 2008 até 2017.

O consórcio que controla a Seguradora Líder é formado por 73 empresas e foi criado em 2007 pelo Conse​lho Nacional de Seguros Privados (CNSP) por meio da resolução n° 154 d​e 08 de dezembro de 2006.

Na prática, a seguradora é responsável pela arrecadação dos prêmios pagos pelos proprietários dos veículos e pelo pagamento das indenizações.

Relações umbilicais com políticos

A auditoria da consultoria KPMG encomendada pela Seguradora Líder mostra as relações umbilicais entre dirigentes do setor de seguros e parlamentares e levanta suspeitas de que deputados atuaram para encerrar a CPI do DPVAT, em 2016. Acionado em acidentes de trânsito para indenizar vítimas, o DPVAT foi o centro de uma recente disputa judicial envolvendo os três poderes. O governo Bolsonaro tentou extinguir o seguro alegando que o seu pagamento estava recheado de fraudes há anos. Congressistas reagiram à medida, alegando que ela prejudicaria o atendimento aos segurados. Em dezembro passado, o Supremo Tribunal Federal (STF) arbitrou a questão, derrubando o fim do DPVAT.

O levantamento da KPMG, ao qual a Revista VEJA teve acesso, detalha o temor da Líder diante da instalação da CPI da DPVAT e as conversas que o então diretor jurídico da seguradora, Marcelo Davoli, manteve com deputados para que eventuais convocações não fossem adiante e para que as investigações não fossem prorrogadas dentro da comissão parlamentar de inquérito. Em 14 de janeiro de 2016, por exemplo, o diretor-presidente da Líder à época, Ricardo Xavier, afirma, em um email, que “temos que continuar trabalhando para que a CPI do DPVAT não sofra a mesma avaliação da Mesa da Câmara que a CPI do Carf”. O destinatário da mensagem é o diretor de Relações Governamentais da Confederação Nacional das Empresas de Seguros (CNSeg), Antonio Mazurek.

Irregularidades

Entre as principais inconsistências estão R$ 219,3 milhões que não tinham evidências de prestações de serviços, R$ 156,1 milhões que estavam sem comprovantes e R$ 47,1 milhões que não tinham documentos fiscais.

Ainda, a consultoria aponta gastos excessivos com cinco médicos: foram pagos R$ 99,6 milhões em indenizações em 36 mil processos envolvendo apenas esses profissionais, o que indica mais de 7 mil processos para cada médico.

Outro ponto importante também destacado foi em relação a atuação de gestores da empresa que tentaram evitar processos de auditoria. As mensagens foram divulgadas pelo jornal.

Cláudio Ladeira, ex-diretor de Operações, disse em 2012: “não passe para eles o bolo, a faca e a boca”, sugerindo que a auditoria receba informações superficiais.

Ainda, três anos depois, em 2015, Marcos Andrade, ex-superintendente de Combate a Fraudes, “pede à área técnica para ‘forçar’ a liberação de um sinistro, mesmo diante de suspeitas de fraudes”, segundo o jornal.

Além disso, um restaurante recebeu, ao longo desses oito anos de análise, R$ 280.530 – cerca de R$ 3 mil por mês gastos pela diretoria da Seguradora Líder.

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