Xiaomi desbanca Tesla na China e consolida sucesso estrondoso do SU7

Pela primeira vez desde que a Tesla introduziu o Model 3 no mercado chinês em 2019, a hegemonia da montadora norte-americana no segmento de sedãs elétricos premium foi quebrada. O feito não foi realizado por uma fabricante de automóveis tradicional, mas pela gigante da tecnologia Xiaomi, que viu seu modelo SU7 superar o rival em vendas totais no ano de 2025. Segundo dados da Associação Chinesa de Carros de Passageiros (CPCA), a Xiaomi entregou 258.164 unidades do seu sedã, um volume quase 30% superior às 200.361 entregas registradas pelo Tesla Model 3 no mesmo período.

Essa virada de mesa confirma o primeiro ano de queda nas vendas domésticas da Tesla na China, um cenário que já se desenhava desde o lançamento explosivo do veículo da Xiaomi. Menos de dois anos após sua estreia, em março de 2024, o SU7 tornou-se o sedã elétrico premium mais vendido no maior mercado automotivo do mundo.

Impacto imediato no mercado financeiro

O sucesso comercial do projeto reflete a euforia vista logo nos primeiros dias após o lançamento do carro. Naquela ocasião, o valor de mercado da Xiaomi disparou mais de US$ 4 bilhões em apenas cinco dias. As ações da companhia atingiram, à época, seu valor mais alto desde janeiro de 2022, chegando a superar em momentos de pico o valor de mercado de gigantes consolidadas do setor automotivo, como a General Motors e a Ford.

A demanda inicial foi avassaladora: a empresa reportou ter recebido 88.898 encomendas nas primeiras 24 horas de vendas. Esse volume forçou a Xiaomi a alertar os compradores sobre tempos de espera que variavam de quatro a sete meses e a solicitar aos fornecedores um aumento na capacidade de produção mensal, saltando de 5.000 para 10.000 unidades rapidamente. Embora a empresa tenha admitido inicialmente uma pequena margem de prejuízo por unidade vendida, a estratégia agressiva de ganho de mercado provou-se acertada, valorizando a companhia como um todo.

A fórmula da virada: Preço e Ecossistema

A receita da Xiaomi para superar a concorrência seguiu a cartilha que a consagrou no mercado de smartphones: oferecer mais tecnologia por um preço menor. O SU7 chegou ao mercado com valores partindo de 215.900 yuans (aproximadamente US$ 31.000), cerca de 9% mais barato que o Model 3, que custava 235.500 yuans (US$ 33.800).

Além do preço, as especificações técnicas pesaram na decisão do consumidor. Enquanto a versão de entrada do SU7 oferece até 700 km de autonomia pelo ciclo chinês (CLTC), o modelo básico da Tesla entrega cerca de 606 km. A integração profunda com o ecossistema HyperOS da Xiaomi e a inclusão de recursos avançados, como LiDAR e assistência ao motorista gratuita, criaram uma barreira difícil de ser transposta pela concorrência.

O veículo foi disponibilizado em três versões distintas para cobrir diferentes perfis de consumidores:

  • Versão de entrada: Acelera até 210 km/h com os já citados 700 km de autonomia.

  • SU7 Pro: Foca na longa distância, prometendo 830 km de autonomia e sistema de direção semiautônoma Xiaomi Pilot Max.

  • SU7 Max: A opção mais esportiva, equipada com motor duplo, capaz de ir de 0 a 100 km/h em impressionantes 2,78 segundos e atingir velocidade máxima de 265 km/h.

Repercussão na indústria e a resposta da Tesla

A qualidade do projeto chamou a atenção até de rivais ocidentais. Jim Farley, CEO da Ford, teceu elogios públicos ao SU7, o que inclusive motivou a montadora americana a criar uma nova equipe dedicada a competir com os elétricos chineses. Relatos indicam que até a Ferrari adquiriu uma unidade do modelo para estudos de engenharia.

Diante da perda de mercado, a Tesla não ficou parada. A empresa de Elon Musk lançou subsídios de seguro no valor de 8.000 yuans e planos de financiamento com juros baixos, os menores em sete anos. No entanto, a guerra de preços na China é implacável: marcas como Xiaomi, Li Auto e Xpeng rapidamente igualaram as ofertas de financiamento, neutralizando a vantagem da americana. Como resultado, as entregas gerais da Tesla na China caíram 4,78% em 2025, com o Model Y — ainda o SUV mais vendido — registrando uma queda de 11,45%.

A Xiaomi, que há uma década fabricava celulares de entrada, agora dita o ritmo no segmento automotivo premium. Com a lacuna de qualidade de construção e tecnologia encerrada, a competição migrou para preço e software, áreas onde a chinesa possui vasta experiência. Não satisfeita com o domínio nos sedãs, a empresa já prepara o terreno para o lançamento do SUV YU7 e planeja novos modelos para 2026, aumentando ainda mais a pressão sobre o Tesla Model Y.