O comércio eletrônico vive um momento de profunda transformação, operando exatamente na interseção entre o varejo tradicional e a inovação tecnológica. A indústria já se enraizou definitivamente no comportamento do consumidor, algo evidente na Europa, onde 77% dos usuários de internet fizeram compras online em 2024. As projeções indicam que as vendas em cinco das maiores economias europeias devem saltar de 389 bilhões de euros em 2024 para expressivos 565 bilhões até o ano de 2029. Fatores como a queda na inflação, o aumento da renda disponível e as mudanças rápidas nas preferências de consumo mantêm o setor altamente aquecido.
O apetite das gigantes do delivery
Todo esse crescimento vem impulsionando uma forte onda de fusões e aquisições. Em 2025, o valor dos acordos no e-commerce europeu atingiu a marca de 21,5 bilhões de dólares, um aumento de 17,5% em relação ao ano anterior. Curiosamente, o volume de negócios caiu de 257 para 193 no mesmo período, evidenciando uma mudança clara do mercado em direção a transações maiores e mais estratégicas. As gigantes do setor de delivery de comida dominaram o cenário, mesmo com as avaliações recuando bastante em relação aos picos vistos na época dos lockdowns. O investidor holandês Prosus, por exemplo, desembolsou 4,3 bilhões de dólares pela Just Eat Takeaway.com. O objetivo da manobra é criar uma verdadeira campeã tecnológica europeia capaz de rivalizar globalmente com nomes como Uber e DoorDash. Ironicamente, a própria DoorDash também foi às compras, adquirindo a britânica Deliveroo por 3,7 bilhões de dólares para ganhar musculatura no Reino Unido.
Capital privado e a revolução da Inteligência Artificial
Os fundos de private equity (PE) estão cada vez mais ativos nesse ecossistema, com sua participação no volume de negócios saltando de 26% em 2024 para 34% em 2025. Negociações bilionárias confirmam essa tendência. A gestora sueca EQT comprou os negócios espanhóis da Adevinta por 2,3 bilhões de dólares, enquanto a americana KKR injetou 1,2 bilhão de dólares na plataforma de viagens Etraveli. Dinheiro em caixa e avaliações mais atrativas incentivam os fundos a adotar estratégias de consolidação em um mercado ainda fragmentado. Paralelamente, a inteligência artificial surge como o grande motor de disrupção da década. Startups como a Swap Commerce, que usa IA para gerenciar estoques e transações internacionais de marcas virtuais, levantaram 100 milhões de dólares em apenas seis meses. A expectativa é que o comércio “agêntico”, no qual agentes virtuais de IA influenciam de forma autônoma as decisões de compra, vire o setor de cabeça para baixo em um futuro bem próximo.
O freio regulatório na Europa
Toda essa movimentação frenética, no entanto, esbarra no olhar atento dos órgãos reguladores europeus. A concentração de mercado, especialmente no setor de delivery, levanta preocupações sérias. Como o mercado costuma ser dominado por um punhado de empresas, qualquer mudança de propriedade pode impactar agressivamente os preços ao consumidor, as taxas cobradas dos restaurantes e a remuneração dos entregadores. As autoridades do continente já demonstram uma postura rígida contra a consolidação desenfreada de plataformas digitais, o que pode ditar o ritmo dos próximos grandes negócios.
A resposta latino-americana e o ecossistema da Infracommerce
Essa mesma onda de digitalização e busca por infraestrutura tecnológica que varre a Europa encontra um eco forte na América Latina. As empresas regionais precisaram adaptar rapidamente suas rotas de mercado, e é exatamente aí que a Infracommerce encontrou espaço para brilhar. Atuando no Brasil, México, Colômbia, Chile e Argentina, a companhia se posiciona como a maior empresa de Full Service para negócios digitais da região. Diferente dos marketplaces tradicionais, ela opera um modelo que visa elevar a presença online e o posicionamento das próprias marcas, oferecendo o que chama de “ecossistema digital white-label”. A estrutura é dividida em módulos que reúnem plataforma omnichannel, marketing, vendas, logística e pagamentos. Isso permite que gigantes como Ambev, Nike, Motorola, Unilever e Hershey’s tenham controle absoluto sobre suas operações de vendas digitais, garantindo uma jornada excepcional ao consumidor final.
Tração financeira e a jornada na Bolsa
A digitalização dessas grandes marcas traduziu-se em números robustos para a provedora de tecnologia. Após registrar um prejuízo de 7,8 milhões de reais em 2019, a Infracommerce melhorou seus resultados em 2020, reduzindo as perdas para 2,3 milhões de reais. No mesmo ano, a receita da companhia disparou mais de 70%, batendo a casa dos 235,9 milhões de reais, enquanto o Ebitda multiplicou quase 2,4 vezes, alcançando 20,7 milhões de reais. Com essa tração, a empresa partiu para a bolsa de valores. Apesar de um soluço inicial que chegou a suspender a operação, o IPO foi retomado dias depois com os papéis precificados a 16 reais. Focada apenas em investidores institucionais, a oferta primária emitiu mais de 54 milhões de ações e movimentou 870 milhões de reais, podendo ainda contar com um lote suplementar de mais de 8 milhões de papéis. Com a injeção de capital, o valor social da Infracommerce foi a cerca de 942 milhões de reais. Hoje, operando sob o ticker IFCM3 no Novo Mercado, o papel continua em negociação na B3, registrando pregões com o ativo cotado a 0,78 reais e um volume de negociação recente na faixa de 143,9 mil reais.