RIO — Foram dez tiros em apenas um segundo. A rajada disparada de um helicóptero da Polícia Civil que tinha o governador Wilson Witzel a bordo perfurou uma lona azul estendida numa trilha do Monte do Campo Belo. Nas palavras dele, era uma operação da Coordenadoria de Recursos Especiais (Core) para “dar fim à bandidagem”, mas, naquele momento, o alvo acabou sendo um ponto de apoio para peregrinação de evangélicos, confundido com uma casamata do tráfico. Por sorte, estava vazio, algo incomum numa manhã de sábado.

— Foi um livramento. Nos fins de semana, sempre tem alguém ali, ajoelhado junto à lona, rezando. Faz parte da nossa peregrinação. O prefeito sabe disso — reclamou o diácono da Assembleia de Deus Shirton Leone, citando Fernando Jordão (MDB), que também estava no helicóptero. — Aos sábados, cerca de 30 pessoas sobem o morro para orar. Algumas passam a noite acampadas ali. Poderia ter sido uma tragédia.

Procurado, Fernando Jordão não comentou o caso. As imagens dos disparos em rajada contra a tenda foram divulgadas pelo próprio governo do estado. Uma equipe do Jornal O Globo esteve na terça-feira no local e constatou que havia vários buracos de bala na lona, alguns com bordas chamuscadas, mas o local não tinha mais projéteis. Não se sabe quem os recolheu. Leone disse que, agora, religiosos estão com medo de voltar ao monte, que fica no entorno da comunidade do Areal, que é dominada pelo tráfico.

Foram vistos ainda dois homens sob uma lona estendida entre as barras de ferro de uma torre de transmissão de energia. Pareciam observadores da quadrilha que age na região e, a despeito da operação de sábado, não se escondiam ou davam a impressão de se incomodar com a chegada da equipe de reportagem.

A Polícia Civil fez nesta terça-feira mais uma operação em Angra dos Reis. Sete mandados de prisão foram cumpridos. Não houve vítimas.

Estado se defende

A operação de sábado levou a Comissão de Direitos Humanos da Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro a denunciar Witzel à Organização dos Estados Americanos (OEA). Ele é acusado de “legitimar a letalidade policial dentro das favelas e periferias do Rio”. Nos três primeiros meses deste ano, foram 434 mortes decorrentes de intervenções de agentes de segurança — em média, quatro por dia.

Em comunicado, o governo disse não ter recebido notificação da OEA, destacou que não houve vítimas na operação de Angra e frisou que sua política de segurança “é baseada em inteligência, investigação e aparelhamento das polícias Civil e Militar”.

Veja a reportagem completa de O Globo