Manaus teve um aumento de 27,7% no número de mulheres vítimas de violência doméstica durante o primeiro semestre de 2020, segundo dados estatísticos da Secretaria de Segurança Pública. Em 2019, de janeiro a junho, o número de vítimas foi de 7.662. No mesmo período deste ano, o numero saltou para 9.782.

Segundo o site de notícias G1, em março deste ano quando surgiram as primeiras medidas de isolamento social por conta dos casos confirmados de covid-19 em Manaus, 1.802 mulheres foram vítimas de violência doméstica. O número apresentou uma queda em abril, quando foram registradas 736 vítimas. No entanto, os meses de maio e junho – período de medidas mais rigorosas de isolamento – os casos voltam a subir. Confira:

A titular da Delegacia Especializada em Crimes Contra a Mulher (DECCM), delegada Acácia Pacheco, em entrevista ao G1, comentou que no período de maio e junho, notou um aumento significativo, quase na faixa de 30% quando comparado ao mesmo período do ano anterior.

Com o período da quarentena, recomendações para ficar em casa, aulas suspensas, empresas que suspenderam atividades, as circunstâncias levaram vítimas a ficarem dentro de casa com seus agressores. A delegada conta que presume, com os casos que teve conhecimento, o abuso de álcool e drogas por parte dos homens foi um dos fatores que mais contribuíram para os crimes.

“Na maioria dos casos, são pessoas [autor] envolvidas com álcool e drogas. Isso atormentava todos os problemas da família, pois muitos perderam o emprego. Então, o meio de subsistência ficou comprometido e junta a tensão, o medo, a pessoa se envolvendo com álcool, é um turbilhão de coisas, infelizmente para acontecer algo pior”, disse.

delegada Acácia Pacheco, titular da Delegacia Especializada em Crimes Contra a Mulher (DECCM) — Foto: Eliana Nascimento/G1 AM
Delegada Acácia Pacheco, titular da Delegacia Especializada em Crimes Contra a Mulher (DECCM) — Foto: Eliana Nascimento/G1 AM

A delegada explicou que, inicialmente, os casos que chegaram até a delegacia eram de filhos que agrediam a mãe ou a irmã, durante o período de isolamento. Em seguida, os autores da violência que tem como vítima mulheres, são maridos, namorados e ex-namorados.

“O aumento dos crimes que estavam acontecendo de violência doméstica, o autor, era o filho, em relação à mãe, e às vezes, a irmã. O que a gente presume: a maioria das pessoas estavam dentro de casa, e esse filho, essa pessoa, sendo usuária de bebida alcoólica, droga, ia para rua e quando voltava, se deparava com familiares, principalmente a mãe, iniciava uma discussão, e essas brigas tinham ‘N’ vertentes, das mais leves até as mais graves”, contou.

“Inicialmente, o que chegava em nossa porta: um filho que não respeita esse distanciamento, as obrigações que surgiram com a pandemia e a mãe que fica com medo, chateada, vai chamar atenção do filho, até mesmo pelo cuidado de mãe. Ela vendo um filho que tá exposto, correndo risco, chama atenção e, às vezes, torna algo pior [violência]”

A titular afirmou que, no início das restrições, [entre março e abril] não houve um aumento significativo. No entanto, disse que, de maio em diante, houve um crescimento de quase 30%.

Denúncia durante pandemia

mulher pode preencher um formulário e registrar o Boletim de Ocorrência, por meio do computador, tablet ou smartphone. — Foto: Divulgação/PC AM
mulher pode preencher um formulário e registrar o Boletim de Ocorrência, por meio do computador, tablet ou smartphone. — Foto: Divulgação/PC AM

Por conta da pandemia, a Polícia Civil do Amazonas adotou medidas e formas online de realizar boletins de ocorrência. Em específico, a delegada explicou que os atendimentos presenciais para mulheres, em casos de violência, somente estavam ocorrendo em razão de: ameaças graves, lesão corporal, feminicídio, tentativa de feminicídio, e crimes que envolviam a necessidade de uma perícia para se comprovar.


“Se for esperar a pandemia passar para fazer perícia, as provas estariam contaminadas ou não existiriam. Nesse período, começaram as campanhas via internet e atendimentos por telefone. A delegacia interativa estava e está registrando tudo o que acontece”, explicou.

Para facilitar o atendimento da mulher, uma nova atualização no site mostra um ícone específico, para “violência doméstica”. Antes, a delegada contou que havia dificuldade para registrar. Ao acessar o site, a vítima tinha que entrar em outras ocorrências, narrar, registrar, e nem sempre as pessoas estavam habituadas.

Mesmo com o retorno das atividades presenciais em delegacias, o site continua a apresentar o mesmo procedimento: agora existe a possibilidade de solicitar requisição de corpo de delito ou perícia de dano.

“Antes, vítima registrava o boletim, mas tinha que vir na delegacia solicitar, pessoalmente, esses documentos. De qualquer forma deixava aquela mulher exposta e na obrigação de vir até a delegacia. Quando oportunizaram essa ferramenta, facilitou o atendimento da vítima, o IML continuou funcionando normalmente. Não teve uma parada nesse aspecto”, disse.

Rede de apoio para mulheres e orientação

A delegacia de mulher conta com o Serviço de Apoio Emergencial a Mulher (SAPEM), que fica atrás da unidade, no Parque Dez, Zona Centro-sul. Lá, a vítima possui um apoio diferenciado, seja psicológico ou social.

Desde o início da pandemia em Manaus, a delegada disse que o serviço não parou. “Foi nosso termômetro principal. Lá, atende também, apresentações da Polícia Militar: está acontecendo o fato, a polícia traz o autor e a vítima e é lavrado o procedimento. Nunca parou, não tinha restrição de atendimento nesse PLV. Em seguida, entra o SAPEM, para falar com a vítima”.

Orientação

Segundo a delegada, em sua grande maioria, a mulher ainda possui medo de denunciar. Para isso, o SAPEM age como um orientador para a vítima.

“O que não podem fazer é deixar e se encolher dentro de casa. A denúncia tem que ser feita. Muitas mulheres tem aquela ideia de que só foi uma vez e não vai fazer a segunda. A mulher fica chateada, é agredida, o homem fica arrependido, beija, recomeça e faz de novo: vira um ciclo vicioso. O que não pode é ela deixar de fazer a denúncia pois o homem é tipo água que escorre: ele vem direto, enquanto ele não encontrar barreira, continua com agressões”