Diagnóstico laboratorial de casos suspeitos do novo coronavírus (2019-nCoV), realizado pelo Laboratório de Vírus Respiratório e do Sarampo do Instituto Oswaldo Cruz (IOC/Fiocruz), que atua como Centro de Referência Nacional em Vírus Respiratórios para o Ministério da Saúde

Não é verdade que o surto do vírus H1N1 – que chegou ao Brasil em 2009, durante o governo Lula (PT) – foi mais letal e contagioso do que o do novo coronavírus. Publicações nas redes sociais que difundem essa desinformação sugerem que a imprensa exagera na cobertura da atual pandemia para prejudicar o presidente Jair Bolsonaro (sem partido). No entanto, elas enganam ao comparar o número de casos nas primeiras semanas da Covid-19 com o acumulado de oito meses da gripe suína. Nos 28 dias desde sua chegada ao país, o novo coronavírus infectou 1.891 pessoas e matou 34; já o H1N1 infectou 627 pessoas e matou uma em seu primeiro mês.

A comparação incorreta foi impulsionada pelo pastor Silas Malafaia em seu perfil oficial no Facebook. Sozinha, publicação dele gerou mais de 10 mil interações, sendo 3.100 compartilhamentos. Postagens semelhantes foram publicadas também por perfis pessoais na rede social, acumulando mais outros milhares de compartilhamentos. Todas elas foram marcadas com o selo FALSO na ferramenta do Facebook

A comparação aponta que o surto de gripe suína, como ficou conhecida, deixou 58.178 infectados, com 2.101 mortos. Quando se refere à situação atual, o quadro usa o número de registros contabilizados até o dia 18 de março no Brasil – 394 infectados e duas mortes (na verdade, os óbitos neste dia já chegavam a 4). A mensagem falsa politiza a comparação, apontando que em 2009 o presidente era Luiz Inácio Lula da Silva (chamado de “Luladrão”).

A questão é que os períodos de tempo não são comparáveis. O primeiro dado é bem próximo ao número total de casos de H1N1 registrados no país em 2009 e 2010 juntos: 59.867. O número de mortes (2.173), também. Ou seja, quase dois anos de doença (já que o primeiro caso de H1N1 foi registrado em maio).

Além disso, é muito complicado comparar as taxas de letalidade, porque a do coronavírus ainda está mudando (ainda assim, ela varia entre 2% e 3%, e está relacionada a fatores de risco). Já a do H1N1 é, em média, de 0,02%.

Segundo o último balanço do Ministério da Saúde (de 25/3), são 2.433 contaminados pelo novo coronavírus no país. Já houve 57 mortes. Os dados se referem a um período menor que um mês. Em 30 dias de H1N1 em 2009, ou seja, um período inclusive maior, foram registrados 627 casos e apenas uma morte.

Para completar, uma análise dos dados globais, compilados pela Organização Mundial da Saúde, revela que, em menos de três meses, o novo coronavírus já registra um número oficial de mortes superior ao total de óbitos registrados em 16 meses de pandemia de gripe suína. Já são mais de 20 mil mortes pelo mundo em decorrência da Covid-19, contra cerca de 18.500 do H1N1 em um período bem maior.

O infectologista Roberto Medronho, doutor em saúde pública e professor da UFRJ, diz que é preciso tomar cuidado com comparações estatísticas, ainda mais com uma das pandemias em pleno curso. Ele afirma que, numa conta dessas, é necessário que o denominador seja o mesmo. Ou seja, a informação que está sendo compartilhada carece de rigor científico.

“Infelizmente, essa pandemia tem um potencial de fazer um estrago maior do que o que fez a de H1N1. No Brasil, atingiu as classes média e alta e, agora, as comunidades pobres. Nós estamos prevendo uma epidemia muito pior daqui pra frente. A única chance que temos é pelas medidas restritivas de circulação das pessoas”, explica.

O médico frisa que não se pode minimizar o cenário. “Como é uma doença com alto poder de transmissão, mesmo que a proporção de óbitos seja pequena, o número absoluto será muito grande. É nisso que temos que pensar: quantos vão morrer.”

A pneumologista Patricia Canto, da Escola Nacional de Saúde Pública, da Fundação Oswaldo Cruz, afirma que o quadro agora é muito mais desfavorável na comparação com a crise do H1N1. “Na época, já estava disponível um tratamento antiviral. O paciente chegava com sinais de gravidade, a gente tratava, e ele respondia. E logo a vacina surgiu”, diz. “Isso não existe para o novo coronavírus. Não há protocolo de tratamento, e a vacina deve levar um ano, um ano e meio.”

A médica, que atuou na contenção da propagação da gripe suína em 2009, lembra que houve, sim, mobilização para isolar pessoas; embora, de fato, menor da que se vê agora. Escolas foram fechadas, e postos de atendimento foram espalhados para atender pacientes, relembra.

A transmissão do H1N1 se deu pela mesma forma que o novo coronavírus, de uma pessoa para outra, por gotículas que saem na fala, no espirro ou na tosse, ou em superfícies contaminadas.

Nos vídeos que compartilha em seu canal no YouTube sobre o coronavírus, o pastor Silas Malafaia tem dito que as igrejas precisam ficar abertas para que as pessoas encontrem conforto emocional no momento de aflição por conta do medo da propagação. “Que vergonha, um monte de pastor assustado e com medo! Temos que profetizar contra essa praga. Se parar tudo, vai ter uma porta aberta da igreja, eu vou estar, para qualquer um que chegar aflito”, diz o pastor, em um dos vídeos.

As informações foram checadas por organizações independentes de checagem de fatos. Nesta reportagem, as informações foram checadas pela Agência Aos Fatos.